Amiga de Lulinha fez 42 ‘reuniões’ fora da agenda no governo Lula

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Foto: Reprodução

A lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, realizou 42 visitas a órgãos do governo federal desde o início do terceiro mandato do presidente Lula (PT). Levantamento do Estadão, com base na Lei de Acesso à Informação (LAI), aponta que 41 desses encontros não foram registrados nas agendas oficiais das autoridades, como determina a legislação para reuniões com agentes públicos.

Na última quinta-feira (30), o Supremo Tribunal Federal autorizou a abertura de um inquérito para investigar Lulinha. Segundo a Polícia Federal, o empresário é suspeito de utilizar sua influência junto ao governo para favorecer interesses privados. A corporação afirma que a atuação teria contado com o apoio de Roberta Luchsinger, principalmente em contatos com o Ministério da Saúde e o gabinete da Presidência da República.

De acordo com o levantamento, as visitas ocorreram entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Não há registros de encontros após esse período. Apenas uma reunião foi oficialmente divulgada em agenda pública.

Entre os órgãos mais visitados está o Ministério do Desenvolvimento Social. O gabinete do ministro Wellington Dias recebeu Roberta Luchsinger 17 vezes. Em uma dessas ocasiões, em março de 2023, ela entregou ao ministro uma caixa de bombons da marca suíça Sprüngli e um exemplar autografado do livro O Alquimista, de Paulo Coelho. Embora o encontro tenha sido fotografado pelo cerimonial, ele não foi registrado na agenda oficial.

Segundo pessoas que participaram das reuniões, a lobista buscava apresentar soluções tecnológicas da empresa Duosystem para o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). Quatro visitas ao ministério ocorreram acompanhadas de um gerente comercial da empresa.

Em abril de 2024, Roberta retornou ao gabinete de Wellington Dias ao lado de Fernando Bittar, então sócio de Lulinha. Segundo o ministério, a reunião tratou da apresentação de propostas para sistemas integrados destinados ao aperfeiçoamento dos serviços da pasta. A pasta afirmou que não houve qualquer desdobramento administrativo decorrente do encontro.

O Ministério da Saúde foi outro destino frequente da lobista. Das 17 visitas identificadas pelo levantamento, apenas uma apareceu em agenda oficial. Nessa ocasião, Roberta apresentou representantes da Duosystem a integrantes da Secretaria de Atenção Primária para demonstrar um sistema digital de gestão de leitos hospitalares destinado ao SUS.

As demais visitas ocorreram sem registro público. Entre elas, uma reunião realizada em março de 2024 contou com a presença de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS“. Segundo a investigação, o encontro tratou de interesses ligados à World Cannabis, empresa que pretendia comercializar medicamentos à base de canabidiol. A Polícia Federal apura se Lulinha atuou para favorecer esse projeto junto ao governo federal.

A investigação também analisa a relação comercial entre Roberta Luchsinger e o “Careca do INSS”. Conforme a PF, uma empresa da lobista recebeu R$ 1,5 milhão do empresário, atualmente preso. Os investigadores apuram se parte desses recursos teve Lulinha como beneficiário.

Em mensagens obtidas pela Polícia Federal, o “Careca do INSS” orienta um funcionário a efetuar um pagamento de R$ 300 mil a Roberta Luchsinger para “o filho do rapaz”, expressão que, segundo a corporação, pode ser uma referência a Lulinha.

Além dos ministérios, Roberta Luchsinger também esteve no Palácio do Planalto e no BNDES sem registro nas agendas oficiais. Em três oportunidades, ela visitou o Planalto acompanhada do empresário Sergio Roberto Bringel, CEO do Grupo Bringel, fornecedor do governo federal. As agendas não informam quais autoridades receberam os visitantes.

No BNDES, ela participou de uma reunião com executivos da Unigel para discutir um possível financiamento destinado à construção de uma fábrica de hidrogênio verde. O banco afirmou que o projeto não avançou e que nenhum investimento foi aprovado.

A defesa de Roberta Luchsinger afirmou que ela representa clientes perante órgãos públicos de forma regular e que reuniões com autoridades fazem parte de sua atividade profissional. Também negou qualquer sociedade ou negócio com Fernando Bittar.

A defesa de Lulinha declarou que o empresário não recebeu pagamentos relacionados a negócios de empresas com o governo federal.

Em nota, a Secretaria de Comunicação da Presidência informou que as reuniões realizadas no Palácio do Planalto “não produziram qualquer desdobramento administrativo, contratual ou regulatório”. O Ministério da Saúde afirmou que não houve efeitos contratuais decorrentes dos encontros. Já o Ministério do Desenvolvimento Social declarou que nenhuma reunião resultou em ato administrativo e informou que Wellington Dias mantém com Roberta Luchsinger “relação de amizade de longa data”.

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