Quando a magreza extrema exaltada nas redes sociais esconde transtornos alimentares

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Quando a magreza extrema exaltada nas redes sociais esconde transtornos alimentares • Foto: Imagem gerada pela IA

Corpos cada vez mais magros voltaram a ocupar espaço nas passarelas, nas redes sociais e no imaginário coletivo. Depois de anos de maior discussão sobre diversidade corporal, dados recentes da indústria da moda indicam um movimento na direção contrária. Ao mesmo tempo, a popularização de medicamentos para perda de peso colocou as transformações corporais ainda mais no centro das atenções. Para especialistas, a valorização constante da magreza pode representar um risco adicional para pessoas vulneráveis a transtornos alimentares.

O movimento aparece nos números. O relatório de diversidade de tamanhos da Vogue Business para a temporada outono/inverno de 2026 analisou 7.817 looks apresentados em 182 desfiles e apresentações de Nova York, Londres, Milão e Paris. Desse total, 97,6% foram classificados como straight-size (US 0–4), 2,1% como mid-size (US 6–12) e apenas 0,3% como plus-size (US 14+). A participação plus-size empatou com o menor percentual registrado desde o início do levantamento, há três anos.

O alerta, porém, vai além da indústria da moda. Uma revisão científica publicada em agosto de 2026 no Journal of Eating Disorders analisou estudos sobre redes sociais, imagem corporal e comportamentos relacionados ao peso entre jovens. O trabalho encontrou associação entre a exposição a padrões corporais idealizados e insatisfação com o próprio corpo, alimentação restritiva, exercício excessivo e uso inadequado de produtos para emagrecimento.

Para a neurocientista e pesquisadora Michelle Rosa, o problema não está na existência de corpos magros nem no uso de medicamentos para perda de peso quando há indicação e acompanhamento médico. A preocupação está na construção de um ambiente em que o emagrecimento volta a ser apresentado de forma recorrente como sinônimo de beleza, sucesso e aceitação.

“Quando um determinado corpo passa a ser apresentado repetidamente como desejável ou ideal, precisamos olhar também para a forma como essas mensagens são assimiladas. Nosso cérebro é constantemente moldado pelas experiências, pelos estímulos e pelo ambiente. Para algumas pessoas, principalmente quando existem outras vulnerabilidades, essa pressão pode assumir um peso muito maior”, explica.

Anorexia não é apenas uma busca pela magreza

Michelle conhece a complexidade desse processo também por experiência pessoal. Ela foi diagnosticada com anorexia nervosa aos 13 anos e convive há mais de 25 anos com sintomas do transtorno. Sua história também contraria uma ideia comum sobre a doença: antes de adoecer, ela não fazia dietas, gostava de comer e sequer conhecia a anorexia nervosa.

“Existe uma tendência de imaginar a anorexia simplesmente como uma busca deliberada pela magreza ou uma recusa em comer. Mas estamos falando de um transtorno complexo, que não possui uma causa única. Fatores biológicos, psicológicos, ambientais e sociais podem se entrelaçar de maneiras diferentes em cada pessoa”, afirma.

Segundo a neurocientista, características como perfeccionismo, rigidez cognitiva, necessidade elevada de controle, ansiedade e mecanismos relacionados ao sistema de recompensa podem fazer parte dessa complexa combinação. Isso ajuda a explicar por que uma mesma mensagem sobre corpo, dieta ou emagrecimento pode não provocar nenhuma consequência em determinada pessoa e assumir uma dimensão completamente diferente para alguém que apresenta maior vulnerabilidade.

Quando emagrecer passa a significar aprovação

A preocupação é especialmente relevante entre os mais jovens. A revisão publicada no Journal of Eating Disorders aponta que pessoas de 10 a 24 anos estão entre os principais usuários das redes sociais e são particularmente vulneráveis aos padrões corporais idealizados disseminados nessas plataformas. Michelle ressalta, porém, que isso não significa estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre redes sociais, padrões de beleza e anorexia.

“Não podemos dizer que uma rede social, uma dieta ou um padrão de beleza causa anorexia. A doença é multifatorial. Mas podemos e devemos discutir o ambiente que estamos criando. Quando crianças e adolescentes recebem repetidamente mensagens de que precisam emagrecer, modificar o corpo ou alcançar determinado padrão para serem aceitos, estamos adicionando mais um elemento a um conjunto de fatores que, em pessoas vulneráveis, merece atenção”, alerta.

A relação entre ambiente, comportamento e funcionamento cerebral é justamente um dos temas centrais do livro Anatomia da Recusa – Um Olhar Pessoal e Científico sobre a Anorexia Nervosa, recém-publicado por Michelle pela Editora Dialética. Na obra, a neurocientista usa mais de duas décadas de convivência com a anorexia como ponto de partida para discutir o transtorno sob uma perspectiva pessoal e científica. A experiência de quem vive com a doença é combinada aos conhecimentos adquiridos em sua formação e trajetória na área de neurociência.

O livro aborda mecanismos cerebrais envolvidos na anorexia, sistema de recompensa, perfeccionismo, necessidade de controle, ansiedade, depressão, hábitos e influência do ambiente, além da relação com a comida, o corpo, a família, a mídia e consigo mesma. “Durante muito tempo, eu não me senti preparada para trabalhar diretamente com transtornos alimentares. Escrever surgiu também da necessidade de compreender a minha própria história e de usar aquilo que aprendi como cientista para ajudar outras pessoas a entenderem uma doença que ainda é cercada por muitos estigmas”, conta.

O problema não é o corpo, mas a pressão para se encaixar

Para a pesquisadora, discutir a volta da valorização da magreza extrema não significa determinar qual tipo de corpo deve ser considerado bonito ou aceitável. A questão, segundo ela, está no momento em que aparência e perda de peso deixam de ser escolhas individuais e passam a funcionar como critérios de pertencimento e aprovação social.

“A questão nunca deve ser dizer que um corpo magro é errado ou que outro corpo é o correto. O problema começa quando acreditamos que precisamos modificar quem somos para alcançar um padrão. Precisamos conseguir falar sobre peso, alimentação e aparência sem transformar o corpo em medida de valor pessoal”, conclui.

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