Perguntas e respostas: qual o lugar do Brasil na guerra tarifária de Trump

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|Gráficos listam as tarifas impostas pelo presidente Trump nesta quarta-feira (Foto: EFE/EPA/SHAWN THEW)

O anúncio de novas tarifas para a importação de produtos e serviços pelos Estados Unidos na quarta-feira (2), feito pelo presidente Donald Trump, pode representar uma “nova ordem” no comércio internacional. Novas oportunidades e desafios podem surgir para o Brasil, especialmente para a indústria. Veja quais são e como a economia do país pode ser afetada a partir do anúncio feito pelo republicano.

Oportunidades para o Brasil nos Estados Unidos

As tarifas impostas por Donald Trump podem beneficiar as exportações brasileiras para os Estados Unidos?

É possível. A tarifa de 10% aplicada ao Brasil é menor que as impostas a outros grandes parceiros comerciais dos EUA, como China (34%), União Europeia (20%) e Japão (24%). Essa diferença pode tornar os produtos brasileiros relativamente mais competitivos no mercado americano.

Os principais setores que podem ser beneficiados são:

• Manufaturados básicos (têxteis): Podem ganhar espaço antes ocupado por produtores asiáticos, agora mais taxados.

• Aço e alumínio: Apesar das tarifas já existentes, o Brasil pode se tornar mais competitivo se outros fornecedores forem ainda mais penalizados.

• Calçados: Com a perda de competitividade de China, Vietnã e Indonésia, o Brasil pode ampliar suas exportações para os EUA.

O diplomata Roberto Azevêdo, que foi diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) entre 2013 e 2020, afirmou que as taxas como foram anuncidas ainda podem fazet com que os produtos brasileiros ganhem competitividade nos Estados Unidos.

As tarifas de Trump são suficientes para garantir a entrada das empresas brasileiras no mercado americano?

Não necessariamente. Embora a tarifa menor seja uma vantagem, o sucesso das empresas brasileiras dependerá de outros fatores, como qualidade, preço, capacidade de adaptação às demandas americanas e estratégias comerciais eficazes. Vale destacar, além disso, que o objetivo de Trump é elevar a produção de bens nos Estados Unidos. Por isso, parte do que hoje é importado pode passar a ser suprida pela indústria norte-americana.

Desafios e riscos para a indústria brasileira

Quais são os principais riscos das tarifas de Trump para o Brasil?

O maior risco para a indústria brasileira é o aumento da concorrência no mercado brasileiro. China, União Europeia e Japão precisarão redirecionar seus excedentes para outros mercados, incluindo o Brasil. Isso pode gerar uma “enxurrada” de produtos estrangeiros mais baratos, prejudicando setores industriais nacionais.

Quais setores brasileiros são mais vulneráveis?

• Siderurgia: Pode sofrer com a entrada de aço chinês mais barato.
• Indústria têxtil e calçadista: Podem enfrentar maior concorrência interna e externa.
• Setor de alumínio: Já afetado por tarifas anteriores, pode sofrer impactos adicionais.
• Café: Os EUA são um grande importador do café brasileiro, e a tarifa adicional pode reduzir a competitividade do produto.

A Associação Brasileira da Indústroa de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) alertou que a medida anunciada por Trump prejudicará as exportações brasileiras de máquinas e equipamentos para os Estados Unidos, tornando-as menos competitivas frente à indústria local, especialmente em máquinas agrícolas, rodoviárias e para a indústria de transformação.

Impactos econômicos das tarifas de Trump no Brasil

Como as tarifas podem afetar o crescimento econômico global e brasileiro?

As tarifas podem reduzir o crescimento econômico global, afetando negativamente o Brasil. O Bradesco estima que o PIB brasileiro possa perder até 0,5 ponto percentual devido à desaceleração mundial. O ponto médio (mediana) das expectativas de mercado para a expansão do PIB brasileiro em 2025 estava em 1,97% na segunda (31), segundo o boletim Focus do Banco Central.

Além disso, A queda nos preços de commodities, como petróleo e grãos, causada pela desaceleração do crescimento global, pode afetar as receitas de exportação do Brasil.

Apesar das ameaças à economia brasileira, Lucas Farina, analista da Genial Investimentos, vantagens podem ser colhidas nos efeitos secundários, com a boa situação relativa do Brasil podendo se refletir em ganho de “market share” das exportações do país no mercado global

Qual o impacto esperado sobre a inflação no Brasil?

A inflação pode sofrer efeitos contraditórios. Por um lado, produtos importados mais baratos podem ajudar a conter a alta nos preços. Bens que não conseguirem entrar no mercado americano podem chegar ao Brasil com preços mais baixos – e isso vale inclusive para componentes usados pela indústria brasileira.

“Com as restrições de comércio com os EUA, é provável que haja uma redução dos preços de bens importados por nós, especialmente de produtos vindos da Ásia”, aponta o Bradesco, em relatório.

Por outro lado, é importante observar o comportamento do câmbio. Uma eventual desvalorização do real frente ao dólar – comum em momentos de aversão ao risco, por exemplo – e possíveis retaliações comerciais podem pressionar os preços para cima.

Neste primeiro momento, porém, a reação no mercado de câmbio foi de queda na cotação do dólar: por volta de 12h desta quinta-feira (3), a moeda norte-americana recuava 1,7% em relação ao real, cotada a R$ 5,60. O impacto final dependerá da dinâmica global e das políticas internas adotadas.

“Os impactos sobre a inflação brasileira são bastante complexos de estimar. O PIB menor poderia retirar 0,15 p.p. da inflação (IPCA), em um exercício parcial, que não considera eventuais impactos no câmbio e nem nos preços globais dos produtos importados”, dizem economistas do Bradesco.

Quais são as expectativas para o curto, médio e longo prazos?

Curto prazo: Impactos setoriais imediatos, aumento da competitividade relativa em alguns setores e possível redução de preços de importados.

Médio prazo: Reorganização do comércio global, aumento da concorrência interna e externa e necessidade de adaptação das empresas brasileiras.

Longo prazo: Risco de protecionismo global, redefinição das relações comerciais (especialmente com a China), e necessidade de investimentos em inovação e eficiência para garantir competitividade.

Estratégias e respostas às tarifas de Trump no Brasil

Como o governo brasileiro está reagindo às tarifas americanas?

O governo brasileiro analisa a situação com cautela e considera possíveis medidas de reciprocidade e retaliação. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta (3) que o Brasil tomará “todas as medidas cabíveis” contra o tarifaço aos produtos brasileiros.

Senado e Câmara dos Deputados aprovaram o Projeto de Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao país responder a barreiras comerciais impostas por outros países. O texto está pronto para a sanção presidencial.

Quais mercados alternativos o Brasil pode explorar?

Além dos EUA, o Brasil pode buscar novos acordos comerciais com Japão, China e União Europeia. A ratificação do acordo Mercosul-UE pode ganhar força diante desse cenário. A América Latina também pode ser um mercado estratégico para diversificar as exportações brasileiras.

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