Lula chamou Cármen de “falsa humilde” e Fachin de “filho da puta”, relata carcereiro

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente Lula (PT) demonstrava ressentimento contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que contrariavam seus interesses judiciais durante o período em que esteve preso em Curitiba, entre 2018 e 2019. É o que relata o policial federal Jorge Chastalo Filho, responsável por acompanhar a custódia do petista durante os 580 dias de encarceramento, no livro Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

Na obra, o agente descreve conversas nas quais Lula teria utilizado expressões ofensivas para se referir a magistrados indicados por ele próprio ou pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Entre os principais alvos estavam a ministra Cármen Lúcia e os ministros Edson Fachin e Luiz Fux, cujas decisões contrariaram pedidos e expectativas da defesa do então ex-presidente.

Segundo o relato de Chastalo, Lula chamava Cármen Lúcia de “falsa humilde”. A irritação estaria relacionada à postura da ministra depois de sua indicação ao Supremo, em 2006. O petista teria recordado uma conversa anterior à nomeação, na qual ela falou sobre sua origem humilde e a importância da gratidão.

Na interpretação atribuída a Lula pelo agente, Cármen teria demonstrado que não reconhecia o gesto de sua indicação. Em uma das conversas, o petista teria reclamado: “Agora está aí, insegura, fazendo merda”. Em outro momento, teria dito que foi dormir com “um ódio muito grande da Cármen Lúcia”, a quem também chamou de “miserável”.

Fachin também aparece entre os magistrados mais criticados nos registros do policial. De acordo com o livro, Lula ficou irritado com decisões do ministro, especialmente quando ele retirou de pauta o julgamento de um habeas corpus apresentado pela defesa para tentar garantir sua liberdade.

“Esse Fachin é um filho da puta mesmo, Chastalo”, teria dito o petista. Na sequência, Lula afirmou que não havia escolhido Fachin para o Supremo durante seu próprio mandato por não confiar nele. A indicação acabou sendo feita por Dilma Rousseff, após uma consulta ao antecessor.

O então ex-presidente também teria questionado a postura religiosa do magistrado, comparando-o a pessoas que demonstram devoção, mas agem de maneira contraditória. “Eu achava ele um comedor de hóstia, um desses religiosos que comem hóstia hoje, mas fazem merda amanhã”, afirmou, segundo a narrativa de Chastalo.

Outro alvo das reclamações foi o ministro Luiz Fux. O episódio relatado pelo agente envolve a decisão que derrubou a autorização concedida pelo ministro Ricardo Lewandowski para que a Folha de S.Paulo e o jornal El País entrevistassem Lula na prisão, em 2018.

Ao receber a notícia, o petista teria lembrado das ocasiões em que Fux frequentava cerimônias no Palácio do Planalto durante seu governo, quando ainda buscava uma indicação ao STF.

“O Fux passou mais de um ano frequentando toda cerimônia quando eu era presidente, com cara de cachorro pidão. Mas nunca confiei nele. Aí veio a Dilma e acabou nomeando esse canalha”, teria declarado Lula, segundo o policial.

O relato também menciona avaliações positivas de Lula sobre outros integrantes da Corte. Gilmar Mendes e Celso de Mello teriam sido apontados pelo petista como ministros corajosos, em contraste com magistrados que, na sua avaliação, evitavam decisões capazes de provocar repercussão negativa.

Para descrever os integrantes que considerava pouco combativos, Lula teria utilizado a expressão “boi do cu branco”. Questionado por Chastalo sobre o significado da frase, explicou que se referia a um touro covarde, que não disputa a posição de reprodutor da manada.

Na avaliação atribuída ao petista, parte dos ministros não teria disposição para enfrentar pressões externas ou tomar decisões controversas, especialmente diante de críticas públicas.

Bastidores da prisão

Os episódios integram os registros feitos por Chastalo durante o período em que Lula permaneceu na Superintendência da Polícia Federal (PF), em Curitiba. O livro reúne anotações sobre a rotina do então ex-presidente, as conversas mantidas durante os banhos de sol e os bastidores da custódia.

Naquele período, Lula enfrentava sucessivas derrotas judiciais no Supremo, incluindo decisões contrárias aos pedidos de liberdade e à realização de entrevistas na prisão.

O petista deixou a carceragem em novembro de 2019, depois que o STF alterou o entendimento sobre a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância, estabelecendo a necessidade de esgotamento dos recursos judiciais para o início do cumprimento da pena.

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