BC aponta R$ 12,2 bi em créditos sem lastro vendidos ao BRB

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Ex-presidente do BRB e Vorcaro

O Banco Central encontrou fortes indícios de que R$ 12,2 bilhões em créditos vendidos pelo Banco Master ao BRB não existiam. A conclusão aparece nos documentos que deram origem à investigação da Operação Compliance Zero. A informação consta em documentos cujo sigilo foi retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), após despacho de Edson Fachin, presidente da Corte.

A análise do BC se concentrou em carteiras que o Master afirmou ter adquirido da Tirreno e depois repassado ao BRB. Os documentos apontam uma série de inconsistências na origem, na documentação e na movimentação financeira dessas operações.

Um dos principais sinais apareceu em janeiro de 2025. Nos dias 13, 16, 20 e 30, foram identificadas 182 mil operações de crédito envolvendo 151 mil titulares. Apesar da quantidade de contratos, os empréstimos estavam concentrados em apenas 12 valores diferentes em cada dia.

“O exame das cessões realizadas nos dias 13, 16, 20 e 30.1.2025 evidenciou quantidade expressiva de operações em conjuntos distintos de apenas12 valores (182 mil operações de crédito com 151 mil titulares), contratados a cada dia”

Para o Banco Central, o padrão é incompatível com a dinâmica usual de empréstimos consignados. Nesse tipo de operação, os valores tendem a variar conforme a renda, a margem disponível e o valor solicitado por cada cliente.

Os números por data também chamaram a atenção dos investigadores. Foram 46.834 operações em 13 de janeiro39.223 em 16 de janeiro2.563 em 20 de janeiro e 67.909 em 30 de janeiro. Ao todo, são aproximadamente 182 mil operações para 151 mil pessoas.

BC não encontrou liberação dos empréstimos

O Banco Central selecionou aleatoriamente 30 supostos clientes das carteiras originadas pela Tirreno. A fiscalização cruzou os CPFs com movimentações financeiras registradas em TEDs e Pix desde 2020.

Em nenhum dos 30 casos foi possível estabelecer correspondência entre os contratos vendidos ao BRB e uma transferência de dinheiro para os supostos tomadores.

O BC fez uma ressalva sobre transferências internas, realizadas dentro da mesma instituição financeira, que não aparecem nas bases transacionais disponíveis. Ainda assim, ao analisar operações dessas mesmas pessoas com outras instituições, os técnicos conseguiram identificar a liberação dos recursos na quase totalidade dos casos.

A diferença entre os dois conjuntos reforçou, segundo o documento, os indícios de insubsistência das operações adquiridas pelo BRB.

Operações da Tirreno repetiam clientes do próprio Master

Outro ponto identificado pelo BC foi a repetição dos clientes.

Os titulares das operações atribuídas à Tirreno e cedidas pelo Master ao BRB em janeiro de 2025 coincidiam, em grande parte, com clientes que já tinham operações do próprio Master vendidas ao banco público entre julho e dezembro de 2024.

O documento considera o cenário contraintuitivo porque a Tirreno havia sido constituída recentemente, em novembro de 2024.

Nas cessões realizadas entre dezembro de 2024 e maio de 2025, foram analisados 358.353 clientes. Desse total, 290.438 já apareciam em operações anteriores.

BRB rejeitou R$ 2,6 bilhões em filtros internos

Os documentos também mostram que o próprio BRB havia identificado problemas antes de concluir parte das operações.

Em junho de 2025, o banco informou ao Banco Central que o Master havia oferecido R$ 9,8 bilhões em carteiras. Os filtros internos do BRB recusaram R$ 2,6 bilhões, equivalente a 26,5% da oferta.

As carteiras estavam distribuídas por mais de 200 entes consignantes.

O dado consta de documento apresentado pelo próprio BRB ao Banco Central. Portanto, trata-se de uma informação fornecida pelo banco público e registrada na documentação da investigação.

Banco substituiu R$ 10,6 bilhões em carteiras da Tirreno

Em julho de 2025, o BRB informou ao BC que já havia substituído R$ 10,6 bilhões, ou 85,5% das carteiras originadas a partir da Tirreno.

O banco previa concluir o desfazimento integral das operações até 18 de julho.

Antes disso, o BRB já havia adotado medidas para reduzir sua exposição. Entre elas estavam a exigência de documentos adicionais, uma auditoria independente e acessos assistidos às dependências do Master.

Como a documentação não foi apresentada integralmente e a auditoria ainda não havia sido concluída, o BRB informou ter adotado uma estrutura de garantia adicional de R$ 16,1 bilhões e uma estratégia para reduzir a exposição às carteiras.

O banco também havia informado ao BC, em julho, que já tinha substituído R$ 4,61 bilhões até aquele momento.

Os números mostram a dimensão da operação. O BRB recusou R$ 2,6 bilhões de uma oferta inicial de R$ 9,8 bilhões e, posteriormente, informou ter substituído R$ 10,6 bilhões em carteiras relacionadas à Tirreno.

Master comprava carteiras da Tirreno e revendia ao BRB

O documento do BC aponta ainda uma diferença na forma como as operações eram realizadas.

Segundo a análise, o Master começou a adquirir carteiras da Tirreno em 3 de janeiro de 2025. Essas compras eram feitas sem coobrigação e sem pagamento imediato até a entrega da documentação comprobatória.

Na sequência, porém, o Master revendia as operações ao BRB com realização financeira imediata.

Mesmo depois do cancelamento das cessões feitas com a Tirreno até 2 de abril, o Master voltou a adquirir carteiras da empresa. Essas novas compras somaram R$ 2,3 bilhões. Depois, novas cessões ao BRB alcançaram R$ 4,05 bilhões, já com prêmio.

Outro ponto levantado pelo BC é que o Master teria cedido ao BRB operações antes mesmo de receber da Tirreno os documentos necessários para formalizá-las.

Origem das operações também mudou

Inicialmente, o Master informou ao Banco Central que as operações tinham como originadoras duas associações de servidores da Bahia, a ASTEBA e a ASSEBA.

A partir de 13 de janeiro de 2025, porém, as cessões passaram a envolver CPFs de diferentes regiões do país.

O BC não encontrou movimentações financeiras dessas associações compatíveis com as cessões feitas ao Master. Após os questionamentos da fiscalização, a titularidade das operações passou a ser atribuída à Tirreno.

O documento também registra que, segundo informações apresentadas pelo BRB, determinadas operações atribuídas à Tirreno e ao Master haviam sido cedidas pela Cartos a outros fundos de investimento em direitos creditórios, os FIDCs Noto, Sueste e VCK.

Master recebeu R$ 6,7 bilhões da Tirreno

Outro ponto analisado foi a relação financeira entre Master e Tirreno.

As obrigações financeiras do Master com a Tirreno pelas aquisições das carteiras somavam R$ 6,7 bilhões. Os valores teriam sido mantidos em uma conta de depósito vinculada, sem registro de rendimentos.

O BC apontou que essa estrutura não seguia o previsto no contrato de parceria, que determinava a aplicação dos recursos em CDBs emitidos pelo próprio Master.

A fiscalização também concluiu que o Master não mantinha recursos líquidos suficientes para honrar as obrigações com a Tirreno caso recebesse toda a documentação das operações.

Documentos foram liberados por Mendonça

O conjunto de informações veio a público após Edson Fachin determinar a retirada do sigilo das investigações relacionadas ao Banco Master. O presidente do STF também enviou o material aos demais ministros antes do julgamento marcado para 15 de setembro.

André Mendonça, relator das investigações, cumpriu a determinação e liberou os documentos, com exceção de diligências cujo sigilo ainda seja necessário para preservar medidas em andamento.

A divulgação ocorre em meio à crise aberta no STF após relatórios da Polícia Federal revelarem mensagens e contatos de Daniel Vorcaro com autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moraes.

Mendonça chegou a determinar o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. Flávio Dino determinou o retorno dos dois aos cargos. Fachin suspendeu posteriormente as decisões e concentrou na Presidência do STF a análise dos processos relacionados ao caso.

O plenário da Corte foi convocado para discutir a investigação em 15 de setembro.

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