
A Polícia Federal (PF) identificou que a diretoria do Banco de Brasília (BRB) recebeu, em agosto de 2024, um alerta interno sobre problemas em aproximadamente 90% da carteira de crédito adquirida do Banco Master. Apesar dos questionamentos sobre a qualidade dos ativos, as negociações entre as duas instituições prosseguiram nos meses seguintes, segundo relatório da investigação encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF).
De acordo com os investigadores, as operações avançaram mesmo diante de inconsistências nos dados, deficiências nos controles internos e dúvidas sobre a existência dos créditos negociados. O documento também aponta que a direção do BRB manteve a estratégia de aquisições e que critérios de avaliação foram alterados ao longo do processo para ampliar o volume de ativos aceitos.
A investigação apura uma série de operações realizadas entre julho de 2024 e outubro de 2025, período em que BRB e Master negociaram cerca de R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito. Desse total, ao menos R$ 12,2 bilhões corresponderiam a créditos comercializados sem comprovação adequada de existência, segundo a PF.
O relatório descreve ainda falhas nos procedimentos de controle adotados pelo BRB. Segundo a PF, a diretoria teria confiado nas planilhas encaminhadas pelo Master sem realizar verificações sistemáticas suficientes sobre a existência dos créditos, a regularidade dos registros e a correspondência dos repasses financeiros.
“Ao confiar cegamente nas Planilhas Excel encaminhadas pelo Banco Master como representação dos créditos negociados, a Diretoria do Banco de Brasília abdicou, na prática, dos três principais mecanismos de controle da operação relativa à cessão de créditos consignados de pessoas físicas: a verificação dos lastros, a conferência das averbações e a conciliação dos repasses financeiros”, afirma o relatório da PF.
A corporação também aponta que operações de grande porte foram divididas em parcelas de até R$ 750 milhões, limite que permitia a aprovação pela Diretoria Colegiada sem submissão individual ao Conselho de Administração. Além disso, cerca de R$ 7,6 bilhões teriam sido pagos antes da conclusão dos pareceres técnicos obrigatórios.
Segundo os investigadores, os alertas internos incluíam sinais de deterioração da liquidez do BRB. Mesmo após a circulação dessas informações e a comunicação formal à diretoria sobre os riscos identificados, as aquisições de carteiras do Master continuaram.
Quinze pessoas foram indiciadas
A investigação resultou no indiciamento de 15 pessoas, entre elas o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o ex-sócio de Vorcaro Augusto Lima.
Também estão na lista seis ex-sócios ou gestores do Master, dois sócios da consultoria Tirreno, apontada pela PF como parte do esquema investigado, e sete ex-dirigentes do banco de Brasília.
O inquérito busca esclarecer a participação de cada investigado nas operações e a extensão das possíveis irregularidades. O indiciamento representa a conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios de envolvimento em crimes, mas não equivale a condenação judicial.
Operações envolveram R$ 17,5 bilhões
De acordo com a PF, as negociações entre os dois bancos fizeram parte de uma estratégia que envolvia a compra, a recompra e a substituição de créditos, operações relacionadas ao aumento de capital do BRB e a tentativa de aquisição do Master.
Os investigadores sustentam que essas iniciativas estavam interligadas e permitiam a continuidade da transferência de recursos para o banco de Vorcaro, que enfrentava dificuldades financeiras. O Banco Central vetou a aquisição do Master pelo BRB, e a instituição privada foi liquidada extrajudicialmente em novembro de 2025.



